Direito à Existência, por Shannon Botelho - Janaina Torres

São Paulo Brasil

Direito à Existência, por Shannon Botelho

3 de maio de 2024 | 08:31
Shannon Botelho
Laíza Ferreira, sem título, 2017 (série Flores Invisíveis), colagem analógica Laíza Ferreira, sem título, 2017 (série Flores Invisíveis), colagem analógica

Existirmos a que será que se destina?
Caetano Veloso

Duas décadas se passaram desde a virada do século. Neste curto intervalo de tempo, o mundo viu a ascensão de conflitos, o desenvolvimento tecnológico, e, sobretudo, uma revolução nos meios de comunicação que desmontou violentamente os antigos modos de perceber os momentos e neles estabelecer as ações cotidianas. Os tempos fraturados ao longo do século passado, como bem definiu o historiador inglês Eric Hobsbawn, deram o tom das transformações ocorridas no fluxo temporal após a 1ª Guerra Mundial. Tensões à toda prova impuseram sobre as sociedades, diversificadas por seus distintos traços culturais, formas de luta e reivindicação de direitos básicos para a perpetuação de seus modos de ser e estar no mundo. O marco de 75 anos da promulgação da lei de direitos humanos – celebrado ao longo do mês de dezembro de 2023 -, apesar de sua inegável e fundamental importância, parece não ser suficiente para afiançar a estabilidade de existências plurais. Como garantir continuidades em um contexto que celebra a descontinuidade? Como perpetuar saberes tradicionais fundantes se a artificialidade das reflexões é a moeda da vez? Eis o desafio vislumbrado para os anos vindouros: garantir o direito à existência.

Esta é a questão que Janaina Torres Galeria pretende focalizar, ao longo do ano de 2024, por meio de suas exposições e demais ações culturais. A noção de direito à existência que é proposto neste projeto curatorial não possui um vínculo direto com o homônimo e controverso conceito legal que normatiza a garantia da vida mesmo antes do nascimento. Aqui são tratadas formas de vida que, no contexto atual da cultura, estão – ou podem estar – sob ameaça de descontinuidade. Urge pensar como as Artes Visuais podem, incorporando as reivindicações contemporâneas levantadas por grupos minoritários ou em vulnerabilidade, contribuir com a manutenção da vida e da dignidade humana. Por esta razão, quatro eixos sustentam a hipótese do discurso curatorial, são eles: Tempo; Arqueologias; Outras Ecologias; Fé e Crença. Ao considerar que estes quatro pilares estão interligados e partilham do mesmo pressuposto, o discurso defende que as existências plurais só estarão asseguradas e o direito à existência só será efetivado quando cada um dos eixos – que neste projeto mimetizam a vida – for considerado em sua plenitude na vida cotidiana e na conduta social. Por se tratar de um projeto curatorial para uma galeria de Artes Visuais, notadamente voltada para a produção contemporânea nacional, importa destacar que cada um dos eixos é compreendido como uma ancoragem na qual as poéticas de cada artista e demais curadores participantes possam derivar e ancorar, num fluxo constante. Como um sistema radicular, em cada eixo, raízes desdobrarão e aprofundarão novas questões e direcionamentos. Sendo assim, os subeixos se repetirão propositalmente a fim de afirmar e diferenciar as muitas formas de vida.

O TEMPO, primeiro dos eixos, opera um papel de elucidação na garantia das existências. Compreendido de modo dessemelhante nas diferentes culturas e modos de vida, o tempo é um regente fundador e limitador da própria existência. No caso específico deste projeto ele adota um contorno para uma compreensão possível de si mesmo que integra as ideias de apagamento, memória e cotidiano. Para tanto, discutiremos as formas de apagamento promovidas por ações sistêmicas sobre comunidades ou indivíduos, considerando que há camadas profundas de violências históricas, simbólicas e materiais contra estes. A memória nos auxiliará na construção e direcionamento das narrativas, uma vez que através delas é possível remontar uma lógica temporal que preconiza a duração e a intensidade (BERGSON, 2010), em detrimento de uma mensuração quantitativa do tempo. Ou melhor, nela o tempo é um dado contíguo à consciência, logo constitui-se como uma duração interior. Como desdobramento, restará discutir o cotidiano uma vez que independentemente de estar localizado no passado ou futuro, ele sempre demarca o presente e sublinha os elementos de maior identificação de determinada vivência e contexto. Para tanto, consideraremos os regimes de historicidade (HARTOG, 2003) percebidos em cada poética apresentada, verificando como as atribuições do tempo narram os presentismos em cada situação de trabalho, vivência e pesquisa visual.

A ARQUEOLOGIA figurará como segundo eixo de discussão das poéticas visuais e por meio dele serão estabelecidas outras investigações sobre apagamento, memória e registro de existência. Visto que a ciência que nomeia este ponto é fundada no contexto sociocultural do século XVIII, onde a redescoberta do passado tornou-se imperativa, propomos que cada obra ou poética figure como forma de reinvenção de subjetividade. Memória e apagamento constituirão uma dupla ferramenta de reflexão, uma vez que uma antecipa – ou faz perdurar – a outra e elucida as formas de poder exercidas sobre ou pelos artistas (FOUCAULT, 2012). Dadas as experiências individuais ou coletivas, cada poética contará sua própria existência, construirá saberes e para isto cada artista operará como um arqueólogo em suas memórias – ou nas memórias herdadas culturalmente – para que seus modos de ser e estar no mundo se perenizem, conectando passado, presente e futuro. Neste sentido, propomos que cada trabalho seja compreendido como um registro de existência ancorando no tempo e espaço um traço subjetivo – com as implicações culturais e sociais –. Cada artista, ao escavar a si mesmo, poderá encontrar uma narrativa que perfaça a si mesmo, constituindo uma verdade que reconcilie o indivíduo consigo e com sua origem (FREUD, 2018).

O terceiro eixo, discutirá OUTRAS ECOLOGIAS possíveis frente aos desafios vislumbrados pela sociedade diante de um futuro incerto. As emergências climáticas ditam o ritmo das reflexões e não há espaços para vãs divagações, já que a tênue miragem do futuro está borrada graças aos descuidos do passado e do presente. Coletividades, Ser-em-Grupo, Natureza e Paisagem serão ancoragens observadas como meios de perpetuar e ressignificar as formas de existir. Natureza e paisagem são elementos fulcrais nas discussões sistêmicas da arte contemporânea (RANCIÈRE, 2020) e fundamentais para o debate que se estabelecerá. A partilha da cosmovisão de artistas indígenas e/ou mestiços tem alargado a compreensão tradicional de natureza e paisagem, sobretudo se considerarmos que por si só esta compõe uma narrativa decolonial. Portanto, ambos assuntos localizam e aproximam as experiências das poéticas artísticas compondo discursividades em favor de um futuro possível, a fim de garantir o direito à existência não somente das formas de vida humana, mas também das estruturas viventes que se coadunam e possibilitam a existência da vida em todo o planeta (COCCIA, 2020). Dada a urgência de pensar outras formas de habitar os lugares em que vivemos, a possibilidade de ser-em-grupo (GUATTARI, 2012) revela – ou antecipa o que será discutido no próximo eixo – que as coletividades originárias compreenderam o que as demais estruturações sociais não foram capazes. Neste sentido, a possibilidade de existir enquanto coletivo consolida e faz perene a existência das comunidades e, com isso, dos indivíduos, fortalecendo a construção de novas formas de viver e estar no mundo.

FÉ E CRENÇA encerra a ideia curatorial ao abraçar os demais eixos com suas respectivas ramificações. Este último ponto acolhe fortemente a ideia de que ambas as definições não são apenas atributos religiosos, mas meios de significar o mundo e suas possibilidades de passado, presente e futuro. Assim sendo, as noções de Religiosidade, Natureza Futura, Ancestralidade e Ser-em-Grupo serão postas em diálogo com as definições e problematizações anteriores a fim de que as visões de mundo possam emergir tecendo uma trama coesa e fundamentada nas visualidades, poéticas e aspirações dos artistas. Só haverá Natureza Futura se formos capazes de depositar nossas crenças naquilo que fazemos para interromper o ritmo de destruição imposto ao mundo. Por esta razão não bastará apenas ser-em-grupo, mas também aceitar a tarefa de que socialmente cada indivíduo deverá operar como um ser ecológico (MORTON, 2023), assim como fazem as coletividades indígenas baseadas em suas crenças, religiosidade e cosmovisões. Será a ancestralidade que nos guiará para o início de nossa reflexão, uma vez que ela opera uma perenização do tempo, conectando o passado com o presente. Contudo, sua maior contribuição não está nesta capacidade de transmutar temporalidades, mas em focalizar o futuro posto que é a ancestralidade que fornece subsídios para a caminhada que nos leva adiante. Ancestralidade, portanto, nos diz mais sobre o porvir do que aquilo que ficou para trás. Ela é e será a própria materialização do tempo, cultura, religiosidade e esperança em cada indivíduo. Será ela mesma a construtora do futuro e garantidora do direito à existência.

Inventar outras formas de vida, avalizar as permanências culturais e sociais, romper com as patentes da morte e tecer outros futuros. Estes são os desafios postos para a sociedade que nos propomos discutir sem, contudo, considerar que haja uma resposta simples ou inequívoca. Ao contrário, as poéticas artísticas que comporão as exposições e projetos discursarão sobre as possibilidades que cada uma vislumbra para garantir o direito à existência. Como vagalumes na escuridão, cada obra/artista/poética abre uma clareira no breu, aponta uma direção – ainda que pequena e repentina – para outro lugar. Assim, o projeto curatorial apresentado para a Janaina Torres Galeria, a ser executado no ano de 2024, buscará enfatizar o desenvolvimento de pesquisas artísticas que versem sobre os eixos apresentados e provocar reflexões que reverberem nas instâncias do contexto artístico brasileiro contemporâneo.

Referências Bibliográficas

BERGSON, Henri. Matéria e memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
COCCIA, Emanuele. Metamorfoses. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2020.
FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. São Paulo: Forense Universitária, 2012.
FREUD, Sigmund. Construções na Análise (1937). In: Freud (1937-1939) – Obras completas volume 19: Moisés e o monoteísmo, Compêndio de psicanálise e outros textos. São Paulo: Cia. das Letras, 2018
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Campinas: Papirus, 2012.
HARTOG, François. Régimes d’historicité. Présentisme et expérience du temps. Paris: Le Seuil, 2003.
MORTON, Timothy. Ser Ecológico. São Paulo: Quina, 2023.
RANCIÈRE, Jacques. Le temps du paysage: aux origines de la révolution esthétique. Paris: La Fabrique Éditions, 2020.

Shannon Botelho é crítico de arte e curador.

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