Liene Bosquê: HamacaS - Janaina Torres

São Paulo Brasil

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HamacaS

Liene Bosquê

Liene Bosquê parte da história pré-colonial das hamacas (redes de dormir, no espanhol) para criar tecidos esculturais que exploram as conexões e dissonâncias estéticas e culturais em torno desse artefato. No projeto HamacaS, a artista atualiza o papel do artesanato e da tecelagem no Sul Global e seu significado para as populações do Sudeste Asiático, da América Central e do Sul, trazendo à tona questões de territorialidade, identidade e gênero. Tecidas colaborativamente e impregnadas de memória, toque e corpo do público, as hamacas situam-se no limiar entre espaços culturais, emocionais e físicos, reconsiderando o sentido de local seguro e abrigo – assim como os limites entre artesanato e arte.

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Queens’s Hammock I

Liene Bosquê
Queens’s Hammock I, 2018/22
Fibras (algodão, rayon e sintética)
76.20 x 203.20 cm

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Hamacas nos levam a imaginar como carregamos lugares conosco, atravessando fronteiras e barreiras. O acolhimento físico e emocional das hamacas envolve a própria trajetória da artista, imigrante latina nos EUA. Quando deixou o Brasil, há 15 anos, para estudar arte em Chicago, Liene não conseguia encontrar um lugar adequado para pendurar sua rede. “Fiquei decepcionada com o drywall de lá. Finalmente, quando cheguei a Nova York, consegui uma residência em um prédio mais antigo e pude fazer um furo para ela. Só então fiquei realmente feliz.

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Miami's Hamaca II

Liene Bosquê
Miami's Hamaca II, 2020/23
Fibras (algodão, rayon e sintética)
180 x 80 cm

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Miami's Hamaca III

Liene Bosquê
Miami’s Hamaca III, 2020/23
Fibras (algodão, rayon e sintética)
165 x 103 cm

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Uma tipoia feita de tecido, corda ou trama suspensa entre dois pontos de ancoragem, a hamaca é definida pela sua relação com o corpo – não simplesmente pelo objeto que representa. Liene Bosquê propõe a desconstrução dos elementos simbólicos, formais e construtivos das redes de dormir, transformando o fio e a superfície em elementos tridimensionais e compondo uma silhueta orgânica, por meio da tensão e da gravidade, em contraste com a geometria do seu cerne.

Detalhe de Miami´s Hamaca II.
Detalhe de Miami’s Hamaca I

A rede de dormir surgiu no trabalho de Liene Bosquê com a escultura Ciclo do Café, 2011, que faz parte da série Paisagem do Café, em que investiga a narrativa e a memória pessoal sua e de sua família no interior do estado de São Paulo, em meados do século 20, onde predominava uma forte cultura rural.

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Ciclo do Café (série Paisagem do Café, HamacaS)

Liene Bosquê
Ciclo do Café (série Paisagem do Café, HamacaS), 2011
Sacos de café, tronco e café
66 x 56 x 24 in

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A obra retrata uma rede feita de sacas usadas de café, justapostas e trançadas manualmente pela artista, pendurada em um tronco de pinheiro, que foi uma árvore de Natal. A ausência do corpo na rede é substituída pelo pó de café, que a artista espalha dentro e embaixo da rede, como uma borra no filtro. O cheiro do café se espalha em torno da obra e ativa o olfato, trazendo de volta a lembrança afetiva da avó de Liene, moendo e passando o café – bem como os registros das comunidades formadas em torno do cultivo da planta e os desafios das mulheres na lavoura, em uma sociedade patriarcal.

O desdobramento da rede de dormir na poética de Liene Bosquê se deu no projeto HamacaS, concebido a partir das controvérsias políticas atuais sobre imigração. Realizado em Nova York, no ArtBuilt Mobile Studio, em parceria com o Queens Museum, em 2018, e em Miami, no Museum of Contemporary Art of North Miami (MOCANOMI), em 2020. Em ateliês colaborativos, as redes foram tecidas com a ajuda dos participantes, imigrantes, em sua maioria, de todas as idades – refletindo a diversidade étnica e cultural das comunidades do entorno.

Oficina de tecelagem do projeto HamacaS em Nova York (2018), que reuniu visitantes do Queens Museum e membros da comunidade latina e asiática do Queens. 
Oficina de tecelagem do projeto HamacaS em Nova York (2018), que reuniu visitantes do Queens Museum e membros da comunidade latina e asiática do Queens. 

As pessoas partilham emoções e histórias ao tecer as hamacas, o que provoca reflexões sobre seu estado atual e também lembranças profundas, dado a arte têxtil estar presente em suas famílias, seja o enxoval das casas, o tricô da mãe ou o crochê da avó.

 

As redes tem muito a ver com meu próprio pensamento sobre o que um imigrante estaria carregando do lugar de onde veio. Trata-se de deslocamento, de como nos ajustamos a uma nova cultura e lugar. Como carregamos nosso passado e nossas histórias conosco”, diz a artista.

GALERIA DE IMAGENS | Registros das oficinas de confecção colaborativa das Hamacas em Nova York e Miami.

O que motiva a minha arte é que as pessoas sejam participantes do trabalho e descubram novas relações com o espaço, com sua comunidade e consigo mesmas. O projeto funciona como um espaço seguro para o diálogo, o debate e a compreensão através do envolvimento no fazer – o espaço entre a mão e a mente, oferecendo descanso terapêutico”
— Liene Bosquê

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VÍDEO | Liene Bosquê interage com os participantes e explica os fundamentos do projeto HamacaS, durante as oficinas no Flushing Meadows Corona Park e Queens Museum, em Nova York.

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Queens’s Hammock II

Liene Bosquê
Queens’s Hammock II, 2018/20
Fibras (algodão, rayon e sintética)
190 x 60 cm

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Casa I

Liene Bosquê
Casa I, 2024
Fibras (algodão, rayon e sintética)
90 x 40 cm

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Nas redes de Liene, temos uma referência ao corpo, ainda que ele não esteja lá. É um espaço-objeto, que redimensiona nossa relação com o mundo, a partir da necessidade do abrigo: um lugar que sempre será vital, onde quer que estejamos. É preciso que exista um lugar – qualquer lugar. A rede desperta essa volta a uma ancestralidade, às riquezas da nossa história, ao mesmo tempo em que aponta, na contemporaneidade, para as inúmeras possibilidades de território, diante de um futuro tão incerto – seja por conflitos, seja por acidentes ambientais. É preciso repensar essa morada, a partir de coisas muito simples, práticas quase rudimentares, que estão sendo utilizadas hoje, em desastres naturais, por exemplo, longe, inclusive, dos recursos tecnológicos. Trata-se de uma obra em aberto, diante de questões igualmente em aberto e que nem mesmo a artista é capaz de saber até onde irão se desdobrar.

— Heloisa Amaral Peixoto, curadora
Detalhe de Miami´s Hamaca I
Detalhe de Queen´s Hammock III

Os materiais usados nas hamacas, como cordas e fitas, provêm do Materials for the Arts, o centro de reutilização criativa da cidade de Nova York que apoia as artes, que recebe materiais descartados por lojas e fábricas e disponibiliza doações a artistas, escolas e ONGs, estimulando-os a imaginar um futuro mais criativo e sustentável.

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Miami 's Hamaca I

Liene Bosquê
Miami 's Hamaca I, 2020/23
Fibras (algodão, rayon e sintética)
190 x 110 cm

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Queens’s Hammock III

Liene Bosquê
Queens’s Hammock III, 2018/22
Fibras (algodão, rayon e sintética)
180 x 58 cm

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Durante o mestrado em Estudos em Fibras e Materiais, no School of the Art Institute of Chicago, Liene Bosquê teve grande influência das teorias do craftivism, ativismo centrado em práticas artesanais, movimento que incorpora elementos do fazer manual em coletivos, solidariedade e feminismo. Sob mentoria de Anne Wilson, que define espaços com tramas têxteis e sua relação com performers e público, Liene foi uma das ativistas da performance Thread Lines (Linhas de Fio), no Drawing Center em Nova Iorque no ano de 2014 (galeria de imagens, abaixo).

Anne Wilson, Thread Lines (Linhas de Fio), Drawing Center (2014).
Eva Hesse, No Title, 1970
Tapeçarias de Anne Albers: Wallbanging, 1925 (esq.) e Red and Blue Layers, 1957 (dir.).
Louise Bourgeois, Untitled, 2006, colagem e tecido

ARTE TÊXTIL | Além de Anne Wilson, os tecidos esculturais de Liene Bosquê também se relacionam com o pensamento de Anni Albers, durante e depois da Bauhaus, que reorientou a tradição têxtil em termos de técnica, materialidade, abstração e a relação com o espaços arquitetônicos. Referências contemporâneas incluem Eva Hesse, na exploração da materialidade e a poética de Louise Bourgeois, que incorpora memória, trauma e cura pessoal, além da construção com têxteis, no final do seu percurso.

Na década de 70, a rede entra na arte contemporânea brasileira como material cultural e símbolo conceitualmente rico da própria cultura. Hélio Oiticica convidou o público a fazer parte de sua instalação Cosmococa deitando em redes, vivenciando a arte a partir de uma nova posição corporal. Liene Bosquê experienciou a obra em 2003, integrando a ação Cosmocrack, que pendurou redes no Parque da Luz, em São Paulo, em diálogo com a instalação de Oiticica, exibida na Pinacoteca, no mesmo parque.

Instalação Cosmococa, de Hélio Oiticica e Neville D’Almeida, na Pinacoteca de São Paulo (2003). Foto: Cortesia de César e Claudio Oiticica.

A importância da participação corporal para transformação da consciência do indivíduo e do coletivo permeia o processo criativo de Liene Bosquê, em projetos que proporcionam vivências criativas na própria criação da obra. Há uma referência direta no trabalho de Liene nas proposições e vivências relacionais da obra de Lygia Clark. Em Elastic Net, Lygia incentivou os espectadores a se envolverem com o objeto em forma de rede, movimentando seus corpos através e dentro dos espaços definidos pelo objeto.

Lygia Clark, Elastic Net, 1969. Participante tecem uma rede com elásticos de borracha,. Com a rede pronta, se aglomeram e se movimentam harmonicamente, criando um organismo vivo. Foto: Acervo Lygia Clark.
Detalhe de Queens’s Hammock IV.
Detalhe de Queens’s Hammock IV.

Liene Bosquê recebeu o prêmio Ellies Creator Award (2019), o Miami’s Visual Arts Awards, e um WaveMaker Grant para apresentar o Projeto HamacaS. A primeira iteração desse projeto de engajamento social na Flórida foi exibida no MOCA North Miami em fevereiro de 2020. Bosquê foi artista residente no Wave Hill, Bronx, e na residência ArtBuilt do Queens Museum, ambos em Nova York. Recebeu também o prêmio Emerging Artist Fellowship do Socrates Sculpture Park, no Queens, onde apresentou sua primeira escultura pública (2016).

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Queens’s Hammock IV

Liene Bosquê
Queens’s Hammock IV, 2018/22
Fibras (algodão, rayon e sintética)
254 x 76.20 cm

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Além das hamacas, os trabalhos de Liene incluem instalações, esculturas, educação e outros projetos participativos. A artista e arte educadora reúne pessoas para considerar as conexões entre a obra e o lugar, por meio de história, da memória e do caráter táctil do fazer, e dedica-se à investigação da relação do corpo com o espaço – e o rastro efêmero que as pessoas deixam nos locais. “É por meio do toque e da exploração de materiais que eu me conecto de maneira mais profunda com o público”, diz.

Liene Bosquê durante a performance itinerante e instalação Collecting Impressions (Coletando Impressões), em São Paulo (2018). Foto: Bianca Reis Verderosi
Liene Bosquê durante a performance itinerante e instalação Collecting Impressions (Coletando Impressões), em São Paulo (2018). Foto: Bianca Reis Verderosi

SOBRE A ARTISTA

Radicada em Miami (USA) há mais de quinze anos, Liene Bosquê (Garça, SP, 1980) tem mestrado pela School of the Art Institute of Chicago, bacharelado pela Universidade Estadual Paulista – UNESP e graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Mackenzie, no Brasil. Em seus trabalhos, explora experiências sensoriais dentro de espaços naturais, urbanos, arquitetônicos e pessoais. Isto inclui esculturas, objetos, instalações e projetos site-responsive, em um processo muitas vezes arqueológico, no qual enfatiza a memória e história dos espaços, de uma forma que pareçam tangíveis. Liene usa frequentemente materiais que podem ser transformados e tomam a forma de um molde, ou que são capazes de receber uma impressão. Assim, por meio de instalações responsivas ao local expositivo e o uso de materiais maleáveis, arquiteturas rígidas são transformadas em superfícies frágeis, revelando  histórias, vazios e ausências, a passagem do tempo e como percebemos a ideia de lugar.

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Técnicas têxteis e a moldagem têm sido assim o núcleo de uma prática artística que explora uma gama de fibras como algodão, seda e linho, e meios como ferrugem, argila, cera, gesso e látex. Sua produção recente inclui projetos colaborativos com comunidades, uma investigação maior sobre o ambiente natural e ecossistemas e perspectivas sustentáveis para o futuro. Possui prêmios e residências de relevo em sua carreira, além de ter trabalhos expostos em instituições como MoMA PS1, Museum of Contemporary Photography- Chicago; Frost Art Museum- Miami; Carpe Diem em Lisboa- Portugal, entre outros.
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Atualmente, Liene é Artista Residente 2023-2024 na Oolite Arts, em Miami Beach, e professora da Universidade de Miami.

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