Osvaldo Carvalho | Maneiras de habitar o mundo, maneiras de habitar a pintura - Janaina Torres

São Paulo Brasil

Osvaldo Carvalho | Maneiras de habitar o mundo, maneiras de habitar a pintura

10 de março de 2023 | 07:11
Cadu Gonçalves
Osvaldo Carvalho, Valdez (Série Terra Prometida), 2015, Acrílica sobre tela, 195x219cm Osvaldo Carvalho, Valdez (Série Terra Prometida), 2015, Acrílica sobre tela, 195x219cm

A catástrofe, às vezes, até se torna uma oportunidade sórdida para se livrar daqueles e daquelas a quem o  mundo é recusado. O ciclone se torna o pretexto para não viver com o outro e para lançar o mundo ao mar.  Malcolm Ferdinand

Falsa Simetria é a primeira exposição individual de Osvaldo Carvalho na Janaina Torres Galeria, e compreende o recorte mais recente da produção do artista carioca, aliado a trabalhos da premiada série Terra Prometida (2011-2017), que, dentro da seleção de obras para a mostra, se coloca atemporal e pertinente aos tensionamentos levantados pelas obras geradas no biênio 2020-2022.

O termo “Falsa Simetria”, tão deflagrado por conta dos recentes acontecimentos sociopolíticos do Brasil, se refere, de maneira bastante reduzida para a escrita deste texto, à ideia falaciosa de que diferentes ações realizadas por diferentes extratos sociais como classe, gênero, raça e orientação política geram os mesmos resultados. No campo plástico, a Falsa Simetria acontece no emprego calculado de telas que aludem a falsos quadrados, em suportes que não possuem medidas exatas, em paletas, relações cromáticas e proporções errôneas entre figura e fundo em comparação aos objetos retratados em cada cena.

Osvaldo Carvalho, Público Alvo, 2021, Acrílica sobre tela, 141x223cm Osvaldo Carvalho, Público Alvo, 2021, Acrílica sobre tela, 141x223cm

Osvaldo Carvalho é essencialmente pintor, não só pela prática da pintura, mas por observá-la, empregá-la e referenciá-la em muito de sua produção. Faz desta linguagem o abrigo, ao longo de mais de vinte anos de pesquisa, de um retrato provocador acerca de problemáticas sociais e ecológicas, ao mesmo tempo que executa uma refinada interlocução com a história da arte ocidental, linguagem e literatura.

O que habita a pintura de Osvaldo Carvalho está desprovido de meias verdades ou meias palavras. O assunto é sempre direto e a operação do artista é literal, a ponto de podermos ouvir a imagem dizer: “É isso mesmo o que você está vendo”, tamanha a objetividade da situação retratada. Representada por meio de cores saturadas, com passagens ásperas e brilho plástico, é na artificialidade da tinta acrílica que o artista alicerça sua produção e insere vernizes produzidos por ele mesmo, que farão com que a luminosidade de cada tela seja ainda mais vibrante, e o ambiente retratado, etéreo.

E, ao mesmo tempo em que a imagem ríspida é transcrita ao longo da tela, o raciocínio do artista ao empregar a história da própria pintura ocidental– a exemplo de Cárites (2020) e Os Negacionistas (2021 )- se materializa quando as Três Graças visitam a terra para anunciar catástrofes e não mais para celebrar a vida, como em A Primavera (c.1480) de Botticelli. Assim como a figura materna envolta pelo dourado, explorada desde a Arte Bizantina às pinturas da fase dourada de Gustav Klimt durante os anos 1900, reaparece em Dânae e Perseu (2021), na qual o ouro dilui-se e passa a existir como água decorrente de uma enchente.

Falsa Simetria tensiona e registra as muitas consequências contemporâneas de um progresso unilateral de mais de 500 anos, alicerçado na usurpação, expropriação e genocídio da terra enquanto potencial econômico e entidade constantemente envenenada e obrigada a absorver, há séculos, o sangue de seus filhos e filhas, cujos corpos não constam em inúmeros tratados e discussões ecológicos, como pontuado pelo escritor martiniquenho Malcolm Ferdinand: “[…] frequentemente, o derretimento das geleiras, os derramamentos de petróleo, os desmatamentos, assim como as guerras e as discriminações de raça e gênero, são lamentados sem que se questionem os lugares, as práticas e os usos de nossos corpos[1], que estão, no entanto, ancorados nessas destruições”. [2]

Osvaldo Carvalho, Hotel Haiti (Série Terra Prometida), 2013/2015, Acrílica sobre tela, 192 x 305 cm Osvaldo Carvalho, Hotel Haiti (Série Terra Prometida), 2013/2015, Acrílica sobre tela, 192 x 305 cm

A exemplo do pensamento de Ferdinand e inúmeros outros teóricos latinos, caribenhos, africanos, indígenas e afro-brasileiros, o trabalho de Osvaldo Carvalho, ao utilizar-se de gêneros clássicos da pintura como retrato e paisagem, nos revela que por trás de grandes feitos históricos e da frondosidade da imagem, sempre existe algo de sórdido, cujos fragmentos do progresso chegam em migalhas a diferentes camadas da população mundial e com consequências semelhantes a punições.

Ainda pensando num campo da tradição da pintura do Ocidente, em especial o Barroco Flamengo, a ideia de finitude da vida terrena se faz presente em inúmeras obras. O crânio humano retratado junto às naturezas-mortas tinha o intuito de lembrar, em especial à nobreza, de que bens materiais não seriam tão importantes na construção da vida. Osvaldo Carvalho, ao propor obras tridimensionais como Goodfellas (2016) e Balafálica (2019), une a ideia clássica do vanitas[3] ao seu processo de aceleração. A finitude, nestes casos, não se dá apenas pela morte natural, ela é um instrumento de poder, que nem sempre se dá por uma interlocução divina, mas pelas mãos do próprio homem e suas demonstrações mais pérfidas de força. Atrevo-me a dizer que Falsa Simetria é um compilado de retratos de um mundo em constante desencanto.

[1] Ler corpos racializados, não europeus.

[2] Ibidem. p. 227

[3] Este tema da pintura se origina no termo em latim “Vanitas” encontrado em Eclesiastes, 1:2, no Velho Testamento cristão, que parte da ideia de que tudo é vaidade, tudo é efêmero e de que a vida terrena terminará em algum momento.

Cadu Gonçalves (São Paulo, 1991) é curador independente e pesquisador.

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